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Edição 53
 
 
 

 
 
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São nos momentos de quietude que chegam a nós os apelos mais profundos da essência, que no cotidiano fica sufocada pelo falatório incessante


por Patrícia Affonso / ILUSTRAÇÕES BRAZ


Logo pela manhã, o despertador faz o primeiro alerta do dia. Persistente e incisivo, o aparelhinho interrompe a tranquilidade imposta pelo silêncio, e avisa: é hora de levantar e dar início a uma sinfonia sem hora para acabar. As notas musicais são as mesmas: o celular, o buzinaço dos carros, gente conversando na rua... Tanta coisa.

Mas, quantas vezes durante essa maratona de afazeres e diálogos você parou para escutar a si próprio? Se a reposta for pouco ou nada, bem, aí mora o problema. Ainda mais se o silêncio e a reflexão causar calafrios. "Criou-se a falsa ideia de que o silêncio está relacionado à solidão. Por isso, muita gente tenta fugir a todo custo da quietude, sem perceber que assim se priva de uma maior consciência interna", afirma a psicóloga Claudia Stella, professora do departamento de psicologia do Instituto Presbiteriano Mackenzie.

A CULTURA DO BLÁ-BLÁ-BLÁ
Para a socióloga Luciana Ferraz, coordenadora nacional da Associação Brahma Kumaris, a questão cultural é uma das principais responsáveis pelo desprezo do silêncio. "Enquanto os orientais crescem aprendendo que ele denota harmonia, paz e respeito, o ocidental relaciona a ausência de som a algo negativo, como a repressão, a censura e o medo", diz.

Prova disso é a educação que se recebe. Desde cedo, os pais estimulam o pequeno a falar e comemoram ao ouvir suas primeiras palavras. No colégio, as crianças costumam depreciar os mais tímidos, considerando os colegas extrovertidos mais interessantes e espertos. Lógica que nem sempre funciona. "É uma inversão de valores. A habilidade de expor ideias e influenciar os outros são tidas como mais importantes do que nossa essência, a princípio, invisível aos olhos", comenta Luciana.

Tal engano ganha força com a dinâmica imediatista na qual se vive. "A antiga ideia `penso, logo existo´ não funciona mais. As pessoas querem ver produção, atividade, não há tempo a perder. Por isso, muitas vezes quem para e pensa sobre o que irá fazer é julgado lento.O que temos é a máxima: `atuo, logo existo´, acrescenta Claudia Stella.

Parece loucura, mas é bem por aí: o que importa é dizer seja lá o que for, preenchendo o espaço vazio. "Todo mundo conhece alguém que fala, fala e não diz nada. Geralmente, essa pessoa está tão preocupada em justificar sua presença diante dos outros, que se quer avalia se o que dirá acrescenta algo. É a tal história: quem faz coisas demais não tem tempo para pensar sobre elas", afirma.

ADENTRANDO O DESCONHECIDO
Ainda sobre a aceitação das pessoas, vale ressaltar que o diálogo é uma importante ferramenta de conciliação. Afinal, é através da fala que o outro aponta com clareza suas preferências, alerta sobre suas restrições e comenta suas expectativas. Pautado nisso tudo, constrói-se as relações. Quando essa comunicação não está bem, a chance de algo se perder no caminho é maior. "Para muitos, o silêncio retira o panorama do que `ser e esperar´ do outro. Então, surge a confusão sobre como agir", explica a psicóloga.

No entanto, a quietude também pode sinalizar muita coisa. "Basta ter sensibilidade para percebermos que o silêncio comunica e muitas vezes até grita. Há várias mensagens por trás do telefone que não toca ou daquele e-mail que nunca chega", pondera Claudia.

Mais assustador do que confrontar o desconhecido é ficar frente a frente com o que nunca se nota ou até mesmo se ignora em si mesmo. E essa é, sem dúvida, uma das principais funções do silêncio. Quem nunca se pegou pensando na vida, minutos antes de dormir, por exemplo? A justificativa é simples: quando o mundo externo se silencia, algo se agita dentro do indivíduo, pronto para ganhar voz. E uma coisa é certa: o que cala aos ouvidos, geralmente fala alto ao coração. É, para muitos, o silêncio vira sinônimo de tortura. "Ele nos coloca diante da inabilidade de permanecermos em nossa própria companhia e nos mostra sentimentos antes esquecidos, muitas vezes, desagradáveis, dos quais não estamos preparados para enfrentar", explica Luciana Ferraz.

Para fugir desse divã revelador, a arma é sempre a mesma: o barulho, seja em uma conversa por chat ou mesmo assistindo à televisão. Tudo para distrair a mente e escapar do acerto de contas com as emoções. Parece mais fácil permanecer na superficialidade das coisas, onde questões mais complexas e por vezes até dolorosas não vão incomodar. Mas, cedo ou tarde, esses sentimentos sufocados se libertam e aparecem, como quem cobra uma solução ou ao menos uma reflexão. "O silêncio é antes de qualquer coisa a pausa das atuações exteriores. É uma oportunidade valiosa para sermos autênticos conosco e assim caminharmos para uma construção pessoal mais rica", opina Claudia.

Quem faz coisas demais não tem tempo para pensar sobre elas

O primeiro passo para isso é a mudança na forma de encarar a tranquilidade. O  silêncio positivo é aquele que não  expressa mau humor, timidez ou falta de assunto, mas o prazer de visitar, observar e experimentar o mundo interior. "Essa é uma experiência revitalizante, um solo fértil para ideias inovadoras. São instantes onde a superficialidade é substituída pela partilha verdadeira, que nos faz crescer, torna as relações  significativas e o tempo e os recursos bem empregados", atesta Luciana.

A DESCOBERTA DE UM MUNDO NOVO
Quem sente dificuldade em permanecer em um ambiente silencioso, deve começar devagarinho. "A ausência total de sons pode ser aflitiva para algumas pessoas, por isso, elas devem fazer um processo gradual, até conseguirem desacelerar a mente e, assim, usufruir o lado prazeroso do silêncio", afirma Claudia.

Serenidade que acolhe
Quando alguém de que se gosta passa por uma situação difícil, seja luto, rompimento ou uma perda importante, as palavras, que antes brotavam aos montes, simplesmente desaparecem. Aí, mais uma vez, começa-se a travar uma batalha contra o silêncio, em busca de algo que possa traduzir a solidariedade e o carinho. Porém, diante da dúvida, o melhor a fazer é calar. "Nessas horas, mais importante do que qualquer frase é sentir o apoio, a presença sincera dos amigos, os bons votos que transbordam daqueles que nos amam", aconselha Luciana. Para ela, momentos difíceis são oportunidades de aprendizagem e crescimento, que podem ser melhor aproveitadas com o apoio de alguém. "A gente tem a falsa ideia de que apenas podemos oferecer palavras, mas o silêncio compartilhado é extremamente acalentador. Sentir a presença do outro, saber que não se está só, faz toda a diferença nessas ocasiões", diz a professora Claudia Stella.

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