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Edição 53
 
 
 

 
 
eco e cidadania
 

Calor humano


Ele é um remédio poderoso em qualquer tratamento. Por sorte, muitos hospitais já aderiram à humanização hospitalar, que torna mais leve e afetuoso o atendimento médico


Por Patrícia Affonso / Shutterstock


Fotos shutterRstocCk

A ideia de visitar o hospital não costuma ser das mais agradáveis. As justificativas para essa antipatia? Muitas, mas, talvez, a sensação de abandono seja a pior delas. Ninguém gosta de se sentir só, ainda mais quando está doente. A fragilidade da saúde pede, principalmente, atenção e carinho e é justamente por isso que cada vez mais instituições de saúde levantam a bandeira da humanização hospitalar, prática que visa, sobretudo, ao respeito e à valorização do paciente.

"Humanizar o atendimento é olhar para aquele que está hospitalizado como alguém que precisa de cuidados e não apenas como um número ou uma doença", pondera Valdir Cimino, diretor fundador da Associação Viva e Deixe Viver, grupo de contadores de histórias que atua em 74 hospitais, em nove Estados brasileiros. Por trás de um pé machucado, há um ser humano inseguro, uma família preocupada e tudo isso requer zelo.

Cultura do aconchego
Antes do século 18, os hospitais eram utilizados basicamente por pessoas de baixa renda, já que as famílias ricas levavam os cuidados médicos para suas casas. Como a medicina ainda era precária, a questão do cuidado e do afeto era mais forte do que a própria busca pela cura. Muita gente procurava nas clínicas um respaldo material, emocional e até mesmo espiritual.

Mas nos últimos tempos, a ciência vivenciou um aprimoramento constante. Surgiram melhores técnicas e aparelhos de diagnóstico e tratamento. A cura passou a ser uma possibilidade mais palpável, em diversos casos. O uso da tecnologia e do conhecimento científico foi adotado como verdade única, a desprezo de tudo o que escapava da lógica, como o quadro psicológico, por exemplo. "A rapidez com que as coisas acontecem, o consumismo e a busca por resultados tornaram a vida das pessoas muito mecânica, sem envolvimento", comenta Viviane Nascimento, gerente de responsabilidade socioambiental do Hospital Nossa Senhora de Lourdes e do Hospital da Criança, ambos de São Paulo. E isso é ruim, especialmente na saúde, quando se depende do outro para se sentir melhor.

Os cinco mandamentos da humanização hospitalar
Confira algumas das medidas mais importantes no exercício desse conceito tão reconfortante

1. Promover o alívio: o profissional deve estar atento e disposto a atender as queixas do paciente, sejam elas físicas ou emocionais. Essa é uma lição de sensibilidade e, por que não dizer, solidariedade.

2. Respeitar o modo de vida do indivíduo: já está na hora de os médicos adequarem os tratamentos à realidade do paciente e não o contrário. Com jeitinho é possível causar menos impacto na rotina de quem está hospitalizado.

3. Praticar o bom-senso: alguns procedimentos são desagradáveis e invasivos. Por isso, só devem ser utilizados quando forem essenciais para o tratamento.

4. Não economizar nas informações: a equipe do hospital deve estar sempre à disposição dos pacientes e seus familiares, para eventuais esclarecimentos. A falta de conhecimento pode levá-los a fantasiar para pior o problema, causando sofrimento desnecessário.

5. Capacitar continuamente a equipe: as instituições devem preparar seus funcionários e colaboradores, para que eles possam atender às necessidades gerais do paciente. É preciso prontidão e boa vontade para derrubar a ideia de que cada um só pode ajudar no que diz respeito à sua especialidade. Às vezes, a atenção basta.

Até mesmo os familiares dos pacientes se sentem mais tranquilos

Ela conta que lá, mudanças simples, sensibilidade e boa vontade foram ingredientes indispensáveis na transformação do atendimento. Para amenizar o ar sóbrio do local, que é reforçado pelas paredes pálidas e o silêncio contínuo, alguns ambientes ganharam toques coloridos e até musicais.

O intuito de tais ações é tornar a estadia do paciente o mais agradável possível. Afinal, já basta estar doente e fora de casa, não é mesmo? "Recebemos os Doutores da Alegria, contadores de histórias e o Projeto Pet Smille, que traz bichinhos para visitar os enfermos", conta Viviane.

Além disso, o hospital oferece aulas de culinária, salas de recreação, DVDteca e oficinas de esculturas com palitos de sorvete. "Outra coisa que fazemos questão é comemorar as datas do calendário e os aniversários, tudo isso para proporcionar alegria e distração para quem já tem motivos de sobra para estar triste e preocupado", diz Viviane.

Fotos shutterRstocCk

Os familiares, que também são alvo do estresse e da tensão que vêm com a doença, são convidados de honra para essas atividades e participam com entusiasmo.

É o momento em que muitos desabafam sobre seus medos, expõem dúvidas e criam um vínculo de confiança com a equipe multidisciplinar.

E quem pensa que esse atendimento especial se restringe às crianças está enganado. Os adultos também têm vez. "Disponibilizamos jogos, filmes, livros, revistas, há apresentações musicais da Faculdade Paulista de Arte e outra ações, afinal, gente grande também precisa se sentir acolhida", diz. Alguém aí discorda?

A outra Face da Moeda
Mas não é só o paciente quem precisa ser bem tratado. O conceito de humanização hospitalar, que virou política pública em 2002, engloba também o bem-estar do profissional da saúde. "Isso inclui desde o oferecimento de ações de capacitação e aprimoramento até a adequação de infraestrutura, que traz condições de trabalho apropriadas à equipe do hospital", esclarece a gerente. Funciona como uma corrente, com resultados já comprovados: quem trabalha feliz e satisfeito, trabalha melhor. Basta refletir por alguns minutos.

Recantos de carinho
O Portal Humaniza dispõe de uma relação dos hospitais participantes do Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH). Clique e descubra onde procurar tratamento diferenciado: www. portalhumaniza.org.br

O que você prefere: ser atendido por um funcionário que, realizado, esbanja um sorriso no rosto, ou pelo descontente, que espalha mau humor e conta as horas para terminar o expediente?

Quem deseja atuar como voluntário também precisa buscar o aperfeiçoamento constante. "Em nosso trabalho, a gente leva informação de um jeito lúdico, introduz em nossas histórias dicas de higiene, nutrição, cuidados básicos, por isso, temos de estar antenados, ter um repertório amplo", afirma o diretor da Associação Viva e Deixe Viver. E mais do que prezar pela saúde do outro, é preciso estar em dia com a própria. "Não dá para atuar nessa área sem cuidar de si mesmo, sem estar em dia com suas consultas e vacinas. É preciso levar o exemplo", argumenta.

 
 
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